Conferências FFLCH - USP, I Congresso Internacional Pensamento e Pesquisa sobre a América Latina

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Paisagem de guerra no Baixo Tapajós
Fabio Ozias Zuker

##manager.scheduler.building##: Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas/ FFLCH - USP
##manager.scheduler.room##: Sala 262
Data: 2019-05-07 02:00  – 05:00
Última alteração: 2019-04-26

Resumo


Na região do Baixo Rio Tapajós, no Oeste do Estado do Pará, milhares de pessoas que até poucos anos atrás se identificavam como caboclas e ribeirinhas passaram a reivindicar a identidade de indígenas e demanda pela gestão de seu território, reunindo-se em grupos como o Conselho Indígena Tapajós Arapiuns, que organiza a movimentação política na região. Concomitante à essa reivindicação é o acirramento do desmatamento, a construção de hidroelétricas, e a chegada da soja na região. Ou seja, uma ameaça talvez sem precedentes às formas de vida locais.A pesquisa que realizo pretende analisar as concepções de tempo e de política indígena da região, levando a sério a recorrência de falas acerca de suas próprias identidades (''sempre fomos índios") e do atual momento político que vivem (''estamos em guerra''). Através delas, pode-se desprender uma alter-versão da colonização que compõe uma narrativa para uma prática de gestão de seus territórios. Em oposição à perspectiva oferecida pela história ocidental, para a qual as culturas indígenas se perdem ao longo do tempo diante do contato com a sociedade brasileira, as falas e reflexões dos povos indígenas locais nos apresenta uma outra possibilidade de entender as transformações ao longo do tempo. Neste artigo, proponho adentrar esse universo analisando duas situações com as quais tenho me deparado no trabalho de campo: a primeira, refletir o que implica pensar as transformações e tensões políticas locais sob o prisma de uma antropologia da paisagem. Como conceito bom para pensar, a paisagem propõe um recorte que não separa humanos e não humanos. A paisagem é sempre uma complexa construção humana e ao mesmo tempo natural. Assim, tenho me debruçado por refletir de que maneira  indígenas compreendem a alteração paisagística de seus territórios, e o que isso nos diz sobre certas concepções políticas e no que elas diferem das concepções modernas. Por fim, pretendo também trazer uma reflexão sobre o lugar da caça e da pesca em uma forma de economia local que privilegia a circulação de bens na criação de relações de afinidade, em oposição ao modo como indígenas locais vem a expansão de uma economia monetarizada. Assim, a partir dessas duas reflexões, acredito ser possível melhor investigar e refletir sobre os significados da guerra, da política e da passagem do tempo, tal como experimentado por indígenas do Baixo Tapajós.

Palavras-chave


Cosmopolítica, Paisagem, Guerra, Indígenas