Conferências FFLCH - USP, I Congresso Internacional Pensamento e Pesquisa sobre a América Latina

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Relações Internacionais e Questão Agrária: neoliberalismo, transnacionalismo e agronegócio na nova fronteira agrícola no cerrado brasileiro.
Fabiana Scoleso

##manager.scheduler.building##: Departamento de História/FFLCH - USP
##manager.scheduler.room##: Auditório Fernando Braudel
Data: 2019-05-07 10:30  – 01:00
Última alteração: 2019-04-29

Resumo


Diante da ofensiva do capital financeirizado e rentista desencadeados pela lógica neoliberal em curso na América Latina de forma mais intensa desde a década de 1990, o mundo do trabalho e a questão agrária se transformaram em categorias que conectadas nos permite observar constantes movimentos e transformações que atendem inexoravelmente as pressões do capitalismo e dos grandes grupos transnacionais.

No caso brasileiro a Constituição de 1988, vetor de acesso a direitos e marco em muitos sentidos de uma nova possibilidade de cidadania e de alargamento da democracia dentro dos marcos burgueses, permitiu que seus dispositivos reconfigurassem e reestruturassem o papel do Estado diante da nova ofensiva do mercado mundial dentro da inovação e da contradição. A democracia representativa é o ponto chave da impulsividade do capital no Brasil e na América Latina e suas bases ampliou com o passar das décadas o modelo neoliberal, ainda que nela contivesse a possibilidade de integração social via políticas públicas.

A mundialização do capital, o neoliberalismo e a transnacionalização são os componentes deste novo metabolismo social e a reestruturação do papel do Estado Brasileiro o componente legitimador da sua incorporação. Essas relações que se estabelecerão irão desencadear uma reestruturação produtiva na cidade e no campo, e nesta última, adicionado um processo de valorização do agronegócio e de toda uma engenharia de negócios (mecânica e bioquímica) com seus aditivos e componentes fiscais e creditícios, que farão das relações econômicas e dos conflitos sociais o termômetro das novas exclusões, da precarização do trabalho e da miséria de parcela significativa da população do campo e da cidade.

O ingresso da agricultura brasileira na era global faz surgir um novo polo da questão agrícola e agrária a partir de excedentes estruturais do nosso capitalismo. O processo de modernização da agricultura e particularmente do cerrado brasileiro é algo que se correlaciona com a sua atual configuração porque criou as bases de expansão e crescimento intensivo e extensivo do desenvolvimento agrícola nacional.

O modelo de agricultura e de agronegócio construídos pressiona a governança da terra no Brasil e se inscreve na década de 1990 e no século XXI sob uma nova dinâmica do capitalismo contemporâneo: a finança capitalista. O agronegócio ganha potência, em especial no governo de Fernando Henrique Cardoso, assim como os movimentos de luta pela terra se potencializam na medida em que as novas formas de miserabilidade vão se estruturando. As exigências do neoliberalismo e da inserção competitiva refletiu sobremaneira no modelo nacional de desenvolvimento. Assim se constitui a territorialidade do agronegócio e de seu capital atrófico-destrutivo. O Estado forja as condições jurídicas e econômicas para esta nova acumulação capitalista permitindo a emancipação de municípios e uma nova divisão regional do trabalho. A lógica neoliberal pressiona e altera as relações entre mercado mundial, estados e municípios é a mesma que produz uma real sujeição dos camponeses que são obrigados a arrendar terras, a se organizar em cooperativas e associações para captar recursos e se submeter a uma nova e precária morfologia laboral e divisão internacional do trabalho.

A nova morfologia laboral e divisão internacional do trabalho está vinculada a um novo modelo de agronegócio chamado de Agricultura 4.0, mola propulsora e integrada de uma nova cadeia produtiva impactada pela transformação digital elevando a condição modernizadora e globalizada da produção e gestão rural. A Agricultura incorporou práticas e processos de precisão, amplo uso de sensores e mecanismos sofisticados de previsão e resposta a variações de clima, assim como incorporou novas expressões e transformou as relações de trabalho e criando uma atualizada categoria de trabalhadores a ela associada: os “novos homens do campo” - produtores e trabalhadores que vivenciam e promovem esta nova revolução tecnológica do agronegócio. Os impactos no mundo do trabalho são enormes e redimensionam os conflitos entre capital e trabalho produzindo novos componentes à luta de classes e aos conflitos no campo.


Palavras-chave


Neoliberalismo; Transnacionalização; Agricultura 4.0; Nova Fronteira Agrícola; Luta de classes